Fernanda estava diferente. Lógico, passou por um turbilhão
de adversidades nos últimos meses, o que a fez ser mais calculista, mais
centrada. Estava ciente das novas responsabilidades diante de si. Com o bebê prestes
a nascer, ela traçava metas do que viria depois. Era um mar de incertezas sim,
só que ao menos queria estar preparada para o que viesse, seja tempestade ou
bonança.
A mãe conseguia escapar de vez em quando, fazia uma visita
aqui e acolá. Tudo na surdina. Se o pai descobrisse, vai saber o que poderia
acontecer. Mas ela fazia questão de correr esse risco e ajudar a filha com o
que podia. Não queria apenas marcar presença financeiramente. Um apoio moral
era necessário.
Esse era um “pé” que estava apoiando Fernanda. O outro era
sua amiga da facul. O fato de ela abrir a porta de casa, fazer dela um lar...
Um gesto que não passaria batido por Fernanda em anos vindouros _dívida que
estava entre as coisas que traçava para o futuro.
O garoto estava distante e presente ao mesmo tempo. Mantinha
contato com Fernanda via celular, ficava por dentro de tudo. Só que sem aquela
efervescência de antes. Pelo contrário, a frieza é quem protagonizava as
conversas. Ele até perguntava sobre como Fernanda estava e etc, mas o que lhe
interessava mesmo era o bebê, aí a empolgação entrava em campo.
Estar naquele minúsculo apartamento o incomodava, por isso
as visitas, conversas presenciais, eram raríssimas. A cada ida lá, ele pensava
como seu bebê seria bem tratado naquele lugar, se ficaria confortável...
Mas, independentemente de qualquer situação, ele já bolou um
plano para o grande dia. Todas as despesas hospitalares estavam sendo pagas
pelo garoto. Fernanda teve um ótimo acompanhamento médico em sua gravidez,
excelente. Optou pelo parto normal e torcia para que tudo ocorresse bem e que
assim fosse. O que necessitava atenção redobrada do rapaz perto do grande dia,
escalado como o motorista.
Bolsa estourou. A sua amiga estava ao lado e mandou as duas
mensagens mais importantes: para o garoto e para a mãe. Em pouquíssimos
segundos, ele já estava na porta do prédio e foram, os três, ligeiros para a
maternidade. A mãe teve longos minutos de discussão com o marido, mais uma
entre tantas brigas envolvendo a gravidez da filha. Desta vez, porém, o pai foi
mais complacente, respondendo apenas com um “tá, vai logo pra lá”.
- Você não vai ver sua filha no hospital?
- Não – devolveu seco.
Quando a mãe chegou, se deparou com a amiga de Fernanda na
sala de espera. Fernanda estava em trabalho de parto e o garoto ficou ao seu
lado. Sem complicações, o bebê nasceu bem, com saúde.
Quando as enfermeiras deixaram o “casal” à sós com o bebê,
dois momentos mágicos se deram, distintos e iguais. A nova mãe fixava os olhos
no que seria a sua maior motivação daqui para frente. Esse era o mesmo
pensamento do pai, mas com um grande diferencial: aquele instante lhe deu a
certeza do que pensou tanto nos últimos meses e tomaria a atitude que achava a
mais correta.
***
Mal a filha tinha nascido e Fernanda planejava voltar a
facul, para perder o mínimo de tempo possível. Queria começar o ano estudando e
achar um trabalho o quanto antes.
As suas duas conselheiras divergiam quando tal assunto
surgia.
- Mas Fernanda, sua filha precisa de você presente a todo
instante, mesmo considerando que já se passaram os primeiros meses –
argumentava a mãe sentada em uma das cadeiras da cozinha.
- Eu sei disso, mãe. Mas será muito melhor pra ela se eu
continuar com meus projetos, não largar de vez a facul e trabalhar. Quero que
minha filha seja sustentada por mim. Eu e minha amiga vamos dar um jeito, não
se preocupe – rebatia Fernanda, segurando a filha no colo, andando em círculos
na sala.
- Isso, vamos dar um jeito. Vou fazer mais do que o possível
para que sua filha e sua neta fiquem bem – falou com entusiasmo a melhor amiga
de Fernanda, sentada no sofá. A vinda da criança também mudou a vida dela, a
fez repensar coisas e ter uma atitude mais responsável. Tinha debaixo do seu
teto duas pessoas. Se sentia responsável.
A mãe de Fernanda ficava ressabiada. Olhava ao redor e
tentava imaginar como tudo ficaria bem naquele lugar. Iria falar algo, mas foi
interrompida com um barulho na porta.
- Oi! Pode entrar – disse a amiga de Fernanda para o pai da
filha.
Ele ficou de pé na sala e em silêncio olhou para a mãe de Fernanda na cozinha, fazendo um aceno e cumprimentando com um boa noite. Não esperava a encontrar no apê, porém ele não recuaria do que tinha para dizer.
- Fernanda, eu tenho um dever, uma obrigação. Não quero
fazer um grande discurso... Vou pedir a guarda da minha filha...
- O quê! – gritou a avó, se levantando abruptamente.
- Fernanda, claramente você não tem condição financeira de
cuidar dela. Aqui não é o ambiente ideal, você não tem renda nenhuma. Falei com
meus advogados e essa é uma causa certa a meu favor. É o melhor para ela,
Fernanda, sem dúvida. Só vim aqui avisar para evitar...
- Saí daqui agora! – mandou a amiga de Fernanda num tom que
lembrou o do seu pai. O garoto se calou, deixou um papel em cima do rack e
fechou a porta.
Atônita, a mãe sentou e olhou para o chão enquanto balançava a cabeça. Abalada, Fernanda permanecia de pé, com o rosto próximo do da sua filha. Sem esbanjar qualquer reação. Imediatamente a amiga quebrou o silêncio.
- Ei! Olha pra mim, Fernanda – outra ordem. Nós vamos sair
dessa, você vai sair dessa. Com a vitória. Não vou deixar que isso aconteça, é
um absurdo! Não importa o que a lei diz, vamos lutar até o fim. Há algo maior
em jogo em meio a tudo isso.
Aquelas palavras meio soltas, mas cheias de verdade, plantou
em Fernanda outra motivação, essa ainda mais importante porque envolvia o bem-estar
de sua filha. Ela, cerrou os olhos encarando a sua amiga e acenou com a cabeça
que sim, que entraria na luta.
Seria o primeiro grande caso da carreira de ambas.

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