Nem era uma questão de não gostar de chegar cedo, mas
Fernanda sempre entrava na sala da faculdade atrasada, com o professor ou
professora já no meio daquela imperdível aula _hoje, sobre direito penal.
Ela foi chegando de fininho, com um copo de café na mão, e sentou em seu lugar
cativo: terceira cadeira na fileira da parede ao lado da porta. Era o seu lugar
de estimação desde o ensino médio.
Sua melhor amiga da facul, a que sentava logo atrás dela,
lhe deu a dica de como seria o dia:
- Hoje a manhã vai ser tranquila, a professora está de
bom humor!
- E como você sabe disso?
- Tá na cara, poxa! Ela transou ontem à noite...
Fernanda tentava dar algum sentido ao que sua melhor amiga
da facul disse. Teria a transa um poder tão forte para mudar o humor de uma
pessoa? Ao juntar esses pontos aparentemente desconexos, ela notou que tinha
sextas que a professora de direito penal estava insuportável. Deve ter
sido resquício de uma noite sem sexo, pensou.
A vida tão agitada da estudante e estagiária não dava o
prazer de ter prazer. Não que evitasse ou não gostasse. Mas simplesmente era
algo ausente em sua rotina. A aula estava com uma empolgação tamanha que
Fernanda encostou a cabeça na parede e tentou lembrar o último dia em que
transou. Parou de contar quando chegou no sexto mês...
Ela conversou com sua melhor amiga da facul sobre um
trabalho que precisavam fazer e saiu um pouco antes da aula acabar,
pois tinha de passar no banco e resolver umas coisas. Acionou o botão para
esquecer o pensamento da manhã. Colocou o fone de ouvido, acionou a playlist
com sambas das antigas (que entregou logo de cara Emílio Santiago, com Verdade
Chinesa) e seguiu o seu caminho.
Ao ir da casa para o trabalho, agora batendo forte o som de
Rashid, aquele pensamento da manhã voltou à mente. Durante o dia ela até
conseguiu vencê-lo, mas desta vez resolveu deixar ser levada e brisar um pouco nos
mais de 40 minutos até chegar ao lar.
Em meio ao turbilhão, percebeu como os homens olhavam para
ela. Isso acontecia corriqueiramente, só que agora ela queria entender de fato
cada significado desses olhares. Não tinha um corpo de uma panicat moldada em
mesas de cirurgia, mas tinha um corpo uniforme [ou melhor, equilibrado...].
Neste dia, estava com um look que achava normal, outros não sentiam atração
enquanto outros achavam sexy: calça social não muito justa, um sapato de salto
baixo, blazer e uma camisa branca por baixo.
A conclusão que chegou foi a de que as encaradas eram
neutras. Na maioria dos casos, notou que os homens a conferiam apenas por
hábito, como se tivesse que olhar para uma mulher que fica a sua frente, quase uma obrigação.
Lá no íntimo, queria identificar ao menos um que a
desejasse. Ainda estava em dúvida se de fato a felicidade estava diretamente
relacionada ao sexo.
Pelo visto, aquela alegria estampada na professora de direito penal iria permanecer em seu pensamento por um bom tempo.

0 comentários:
Postar um comentário