Capítulo 10 – Fernanda e a mudança de vida


Fernanda estava diferente. Lógico, passou por um turbilhão de adversidades nos últimos meses, o que a fez ser mais calculista, mais centrada. Estava ciente das novas responsabilidades diante de si. Com o bebê prestes a nascer, ela traçava metas do que viria depois. Era um mar de incertezas sim, só que ao menos queria estar preparada para o que viesse, seja tempestade ou bonança.

A mãe conseguia escapar de vez em quando, fazia uma visita aqui e acolá. Tudo na surdina. Se o pai descobrisse, vai saber o que poderia acontecer. Mas ela fazia questão de correr esse risco e ajudar a filha com o que podia. Não queria apenas marcar presença financeiramente. Um apoio moral era necessário.

Esse era um “pé” que estava apoiando Fernanda. O outro era sua amiga da facul. O fato de ela abrir a porta de casa, fazer dela um lar... Um gesto que não passaria batido por Fernanda em anos vindouros _dívida que estava entre as coisas que traçava para o futuro.

O garoto estava distante e presente ao mesmo tempo. Mantinha contato com Fernanda via celular, ficava por dentro de tudo. Só que sem aquela efervescência de antes. Pelo contrário, a frieza é quem protagonizava as conversas. Ele até perguntava sobre como Fernanda estava e etc, mas o que lhe interessava mesmo era o bebê, aí a empolgação entrava em campo.

Estar naquele minúsculo apartamento o incomodava, por isso as visitas, conversas presenciais, eram raríssimas. A cada ida lá, ele pensava como seu bebê seria bem tratado naquele lugar, se ficaria confortável...

Mas, independentemente de qualquer situação, ele já bolou um plano para o grande dia. Todas as despesas hospitalares estavam sendo pagas pelo garoto. Fernanda teve um ótimo acompanhamento médico em sua gravidez, excelente. Optou pelo parto normal e torcia para que tudo ocorresse bem e que assim fosse. O que necessitava atenção redobrada do rapaz perto do grande dia, escalado como o motorista.

Bolsa estourou. A sua amiga estava ao lado e mandou as duas mensagens mais importantes: para o garoto e para a mãe. Em pouquíssimos segundos, ele já estava na porta do prédio e foram, os três, ligeiros para a maternidade. A mãe teve longos minutos de discussão com o marido, mais uma entre tantas brigas envolvendo a gravidez da filha. Desta vez, porém, o pai foi mais complacente, respondendo apenas com um “tá, vai logo pra lá”.

- Você não vai ver sua filha no hospital?

- Não – devolveu seco.

Quando a mãe chegou, se deparou com a amiga de Fernanda na sala de espera. Fernanda estava em trabalho de parto e o garoto ficou ao seu lado. Sem complicações, o bebê nasceu bem, com saúde.

Quando as enfermeiras deixaram o “casal” à sós com o bebê, dois momentos mágicos se deram, distintos e iguais. A nova mãe fixava os olhos no que seria a sua maior motivação daqui para frente. Esse era o mesmo pensamento do pai, mas com um grande diferencial: aquele instante lhe deu a certeza do que pensou tanto nos últimos meses e tomaria a atitude que achava a mais correta.

***

Mal a filha tinha nascido e Fernanda planejava voltar a facul, para perder o mínimo de tempo possível. Queria começar o ano estudando e achar um trabalho o quanto antes.

As suas duas conselheiras divergiam quando tal assunto surgia.

- Mas Fernanda, sua filha precisa de você presente a todo instante, mesmo considerando que já se passaram os primeiros meses – argumentava a mãe sentada em uma das cadeiras da cozinha.

- Eu sei disso, mãe. Mas será muito melhor pra ela se eu continuar com meus projetos, não largar de vez a facul e trabalhar. Quero que minha filha seja sustentada por mim. Eu e minha amiga vamos dar um jeito, não se preocupe – rebatia Fernanda, segurando a filha no colo, andando em círculos na sala.

- Isso, vamos dar um jeito. Vou fazer mais do que o possível para que sua filha e sua neta fiquem bem – falou com entusiasmo a melhor amiga de Fernanda, sentada no sofá. A vinda da criança também mudou a vida dela, a fez repensar coisas e ter uma atitude mais responsável. Tinha debaixo do seu teto duas pessoas. Se sentia responsável.

A mãe de Fernanda ficava ressabiada. Olhava ao redor e tentava imaginar como tudo ficaria bem naquele lugar. Iria falar algo, mas foi interrompida com um barulho na porta.

- Oi! Pode entrar – disse a amiga de Fernanda para o pai da filha.

Ele ficou de pé na sala e em silêncio olhou para a mãe de Fernanda na cozinha, fazendo um aceno e cumprimentando com um boa noite. Não esperava a encontrar no apê, porém ele não recuaria do que tinha para dizer.

- Fernanda, eu tenho um dever, uma obrigação. Não quero fazer um grande discurso... Vou pedir a guarda da minha filha...

- O quê! – gritou a avó, se levantando abruptamente.

- Fernanda, claramente você não tem condição financeira de cuidar dela. Aqui não é o ambiente ideal, você não tem renda nenhuma. Falei com meus advogados e essa é uma causa certa a meu favor. É o melhor para ela, Fernanda, sem dúvida. Só vim aqui avisar para evitar...

- Saí daqui agora! – mandou a amiga de Fernanda num tom que lembrou o do seu pai. O garoto se calou, deixou um papel em cima do rack e fechou a porta.

Atônita, a mãe sentou e olhou para o chão enquanto balançava a cabeça. Abalada, Fernanda permanecia de pé, com o rosto próximo do da sua filha. Sem esbanjar qualquer reação. Imediatamente a amiga quebrou o silêncio.

- Ei! Olha pra mim, Fernanda – outra ordem. Nós vamos sair dessa, você vai sair dessa. Com a vitória. Não vou deixar que isso aconteça, é um absurdo! Não importa o que a lei diz, vamos lutar até o fim. Há algo maior em jogo em meio a tudo isso.

Aquelas palavras meio soltas, mas cheias de verdade, plantou em Fernanda outra motivação, essa ainda mais importante porque envolvia o bem-estar de sua filha. Ela, cerrou os olhos encarando a sua amiga e acenou com a cabeça que sim, que entraria na luta.

Seria o primeiro grande caso da carreira de ambas.

Um comentário:

Tecnologia do Blogger.

Made with by Odd Themes Published By Gooyaabi Templates

© 2014 Mapa da Mina - Todos os direitos reservados.