Capítulo 2- Fernanda e o metodismo


Por mais que tivesse X planos, a maioria com convites convidativos das amigas (daqueles que ia arrastada), Fernanda gostava de incluir no itinerário uma passada no cinema e a ida tradicional ao Mc. Como conseguiu se livrar das roubadas nada interessantes para ela, teria mais tempo para aproveitar o sábado em seus lugares prediletos.

Embora curtisse sempre esse combo do prazer – sim, era esse um dos poucos prazeres que tinha –, ela não gostava de ir sempre nos mesmos estabelecimentos, para diferenciar um pouco. A variação da vez a levou à Avenida Paulista, nada mais paulistano.

O que a atraiu, na verdade, foi a imensa quantidade de Mc’s que tem por lá. O cinema? Foi em um de um shopping qualquer, só para assistir mais um filme de super-herói. Já o Mc foi escolhido com cuidado. Na sexta à noite, pesquisou todos pela internet, escolheu um próximo ao tal shopping. Mais urbano, ela pensou.

Não se incomodava em andar sozinha. Ou melhor, não se incomodava em sair sem ninguém para conversar. Pois acompanhada sempre estava, ou de um livro (didático, quase sempre) ou de alguma música. Por ter tido uma semana cansativa de provas, optou pela música. E as canções da vez foram os pops mais clichês possíveis.

Depois de ser alvejada por um filme quase todo feito de ação, lutas, explosões, sem qualquer diálogo que durasse mais que um minuto, Fernanda caminhou ouvindo uma música da Selena Gomez ao entrar no paraíso. Sentiu um gelo na espinha, os pelos do braço arrepiaram. Deu até um suspiro. Poderia ser qualquer coisa, mas era apenas o corpo reagindo à troca de temperatura, do calor escaldante da rua para o frio do ar condicionado do Mc.

O suor no nariz fazia os óculos descerem um pouco no rosto e com o dedo indicador ela o ajeitava. Era um cacoete característico. Chegou a ouvir de um cara que o gesto é sexy. Não sabe bem o porquê, mas lembrou disso ao entrar na lanchonete. Foi em direção dos caixas e acabou achando um vazio. Já marcou no seu coração esse Mc com um coraçãozinho!

Após fazer o mesmo pedido de sempre, um metodismo que às vezes a irritava, ela ficou ao lado do caixa esperando o lanche ser entregue. Ao mesmo instante, encostou uma pessoa no balcão. Ela percebeu que era um homem ao olhar primeiro o tênis, uma mania boba que tinha. Fez isso enquanto lia a nota fiscal porque não tinha nada melhor para olhar entre aqueles longos segundos no vácuo.

Quer dizer, não tinha...

Mais uma vez aquela gota de suor fez os óculos deslizarem. O colocou no lugar enquanto olhava aquele tênis com um N bem grande, de cor branca. A boca da calça jeans preta cobria parte do tênis. 

Conforme subia a cabeça, notou que a largura da calça começava a aumentar quando sua visão se deparou com as coxas e o quadril. Foi o momento em que uma camisa branca tapava um pouco a paisagem, mas continuou subindo a cabeça. O braço, nem tão raquítico nem tão marombado, bem mais escuro que a sua pela branquíssima. O rosto tinha aquela barba só antes vista por ela nas capas da revista GQ.

Foi a hora em que o olho dele, mais arredondo e escuro que uma jabuticaba, encontrou o dela. Com um sorriso tímido, ele fez um gesto com a cabeça para a esquerda. Fernanda ficou sem entender, até porque ela paralisou um pouco. O transe acabou ao ouvir um grito:

- Big Mac, batata média e coca zero! (dito pela segunda vez pela simpática atendente, que isso fique registrado).

Envergonhada, sentindo a pele queimar, Fernanda pegou a sua bandeja e como um cachorro que se esconde, foi em direção a mais isolada mesa e sentou de costas para o corredor. Só tinha coragem de olhar para a parede.

Durou mais que o habitual a refeição. A cada mordida era um pensamento sobre o que acabara de ocorrer. Ainda confusa, nem pediu um café, como de costume. Apenas foi a até a lixeira, limpou a bandeja e decidiu dar uma caminhada.

O caminho certo era para a direita. Destino metrô, destino casa. Porém, virou à esquerda e partiu para onde o nariz apontava. No ouvido, voltou a Selena Gomez, agora cantando Good for You. Poucos passos depois, viu aquela cafeteria famosa e a vontade falou mais alto. Entrou, fez o pedido, e assim que pegou o café para ir tomando na rua, olhou para o lado e reconheceu aquela camisa branca no sofá. Ouvia da cantora da Disney “I wanna give to you hard / so good / so bad...”. Detectou uma piscadinha do garoto do olho de cor de jabuticaba, acompanhado de um aceno de mão a convidando para sentar ao seu lado.

Era Fernanda em frente ao dilema: aceitar esse convite mais do que convidativo ou deixar o metodismo vencer [novamente]?

Segurando aquele copo branco com os dedos em um papel bege, em segundos que pareciam uma eternidade, ela pensava o que fazer...

Um comentário:

  1. Quem diria que um hábito alimentar tão ruim prometeria um encontro desses, 😱 Santo BadFoodDay! 😉

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