Caso estupro coletivo no Rio: interesse público, do público ou corrida pela audiência?


As redes de TV não perderam tempo e logo tomaram posse de um furo que levaram da internet, mais precisamente das redes sociais. No feriado de Corpus Christi, no último dia 26, uma quinta-feira, veio à tona o estupro coletivo sofrido por uma adolescente de 16 anos na cidade do Rio de Janeiro. Já na sexta, o SBT exibia uma entrevista rotulada como exclusiva com a garota. Eis o pontapé desta história.

Afinal, o caso é um interesse público, do público ou virou uma mera corrida pela audiência? Tudo isso sem a presença inicial do “advogado do Diabo”, que erroneamente demorou para dar as caras.

*Antes de tudo, cabe um esclarecimento: eu não sou formado em Direito nem sou policial. O texto não trará julgamento do caso em qualquer hipótese. Sou jornalista e faço aqui uma análise da cobertura das principais redes de TV sobre 
o caso*

É fácil distinguir o que é uma notícia de interesse público da que é de interesse do público. Interesse público é aquilo que afeta o cidadão, um grupo de pessoas, etc. Exemplo: aumento da gasolina, corrupção. São fatos que a população deve saber, principalmente como isso pode afetar o cotidiano.

Já notícias de interesse do público pode não ter uma relevância primordial aparente, mas são importantes. Tem seu valor por haver gente interessada no assunto, seja no casamento de uma celebridade ou se fulana de tal está solteira. O público tem interesse nisso e o jornalismo tem de reportar.

Então, o caso da adolescente é interesse público ou do público?

Pode se argumentar que se encaixa nas duas teorias. É imprescindível que o jornalismo trate do assunto como serviço, ressaltar o quanto a mulher está vulnerável a qualquer tipo de violência e que o agressor não teme represálias devido ao sentimento de impunidade. Vale pontuar que ouvir a garota também é importante no contexto.

Isso também é interesse do público, ouvir o ponto de vista da adolescente. Assim como descobrir os fatos, de fato. O povo estava à espera.

Agora, o quanto as emissoras foram aproveitadoras? Praticaram mesmo o jornalismo como tem de ser?

A entrevista conseguida pelo Roberto Cabrini para o SBT exibida na última sexta (26) fazia parte de um especial do Conexão Repórter do domingo, dia 29. Claro, foi rotulada de entrevista “exclusiva”. Por ter sido o primeiro veículo a falar com a garota, o SBT ganhou destaque em diversos sites e portais. O programa, com pouco mais de 54 minutos de duração, teve o estilo Cabrini bem claro. Experiente, o jornalista procurou ter um papo mais descontraído, tanto com a adolescente quanto com a mãe dela. Houve a dramaticidade típica por ser um programa longo, porém foi esclarecedor.

No mesmo domingo, a Record também anunciou como “exclusiva” uma entrevista com a menina, exibida no Domingo Espetacular. A reportagem foi bem ampla, cerca de 32 minutos, e serviu como chamariz de audiência. Só esqueceu de um princípio básico do jornalismo.

E também no domingo, a Globo exibiu sua entrevista “exclusiva”, feita às pressas. Somente por volta das 17h, durante o segundo tempo dos jogos do Brasileirão, que foi anunciada a tal entrevista que iria ao ar no Fantástico. O papo curto, apenas 7 minutos, foi conduzido por uma mulher, a Renata Ceribelli. Talvez por isso, a garota se sentiu mais à vontade _deu para perceber essa diferença em comparação com as outras entrevistas. Logo, deu as melhores declarações.

O outro lado passou despercebido em todas as ocasiões citadas acima. Talvez a comoção tenha sobreposto o bom senso. Ninguém questionou qualquer informação dada pela menina ou reportada pela polícia. Um dia foi suficiente para isso mudar.

Na segunda (30), Marcelo Rezende assumiu o papel de “advogado do Diabo”. Ele, assim como o Cabrini, tem propriedade para falar de assuntos criminais por ter uma vasta experiência na área. E justamente essa foi uma das cartas que Rezende usou ao propor uma análise mais ampla de tudo no primeiro Cidade Alerta da semana.

O apresentador reforçou que todos os envolvidos no estupro têm de ser punidos, o que não omitiu em nenhum instante (ao contrário do que aqueles que se abastecem de posts em rede sociais temem a propagar). Ele questionou coisas como: Se a garota estava dopada, como conseguiu contar quantos homens estavam ao seu redor? Estaria ela se baseando no vídeo em que um cara diz que haviam “mais de 30”? O corpo de uma adolescente aguentaria ser violentada por “mais de 30” homens? Quais os motivos dela estar naquela situação? Estupradores são tão nojentos que nem o bandido mais cruel perdoa. Como os “mais de 30” passaram ileso em um reduto dominado pelo crime?

São perguntas _entre outras que ele propôs_ justas. Não para julgar ninguém, apenas para esclarecer o ocorrido. Uma das missões do jornalismo, aliás. Es-cla-re-cer. Não determinar vereditos. Culpar quem a Justiça sequer julgou. Fazer tal coisa é crime e a imprensa, ao longo da história, cometeu equívocos precipitados e teve de pagar caro.

Além de “advogar para o Diabo”, a imprensa precisa dar continuidade a cobertura, não deixar esmorecer. Falar sobre o caso, sobre estupro coletivo, sobre a violência contra a mulher quando tais coisas não forem notícia. A imprensa tem de fazer desses temas pautas permanentes, debater e fazer a população refletir. Nunca esquecendo do outro lado, do outro ponto de vista. A missão da comunicação é informar, apresentar todos os fatos possíveis para o público analisar o assunto por completo.

E deixar que a Justiça julgue. 

0 comentários:

Postar um comentário

Tecnologia do Blogger.

Made with by Odd Themes Published By Gooyaabi Templates

© 2014 Mapa da Mina - Todos os direitos reservados.