Playboy dos EUA esconde nudez, volta no tempo e marca um golaço


Em outubro do ano passado, a revista Playboy dos Estados Unidos anunciou que não iria exibir mais nudez em suas páginas. A princípio, para o público em geral, foi um choque. Algo como se a Quatro Rodas não mostrasse mais carros ou a Placar deixasse o futebol de lado. Mas a decisão tomada teve amparo em uma estratégia certeira, concretizada há dois meses. Playboy voltou às origens e elevou o status de uma publicação sofisticada, sem perder leitores ou anunciantes.

Ao ler a edição do mês de maio, me lembrei imediatamente de edições da década de 1960. Começa pela capa, elegante, sutil. O propósito da Playboy no início era justamente esse, ser diferenciada. As mulheres nuas faziam parte sim do pacote, mas chegavam a ser ¼ das páginas de uma edição. O destaque mesmo eram os artigos, os textos.

Capa da edição de maio de 2016 da Playboy (à esq.); do lado, a capa de março de 1970
O fundador da revista Hugh Hefner, trabalhou na Esquire (tipo uma VIP, só que bem melhor). Lá, nos anos 1950, a Esquire já se destacava como uma revista de alto padrão, para homens do mesmo status. A Playboy seria uma Esquire com mulheres. Hefner, incerto se a ideia vingaria, nem enumerou a considerada hoje primeira edição da revista, com a atriz Marilyn Monroe na capa.

Hefner queria apresentar a mulher simples nas páginas de Playboy. The girl next door, a vizinha. E os ensaios nos anos vindouros eram carregados de sensualidade, de provocação _justamente no pé que a revista está atualmente.

A escritora Farah Holt (à esq.) na Playboy de maio de 2016; em agosto de 1966, a atriz Susan Denberg foi destaque
A Playboy se viu forçada a exibir uma nudez mais explícita na década de 1970, 
época que se viu no meio da intitulada Pubic Wars (algo como Guerra Púbica) com a revista britânica Penthouse. Ela chegou nos EUA em 1969 mostrando sem pudor os pelos púbicos das mulheres em suas páginas. O público, curioso, passou a consumir muito a Penthouse e Hefner precisava tomar uma posição. Muito relutante no começo, não querendo ceder, Hefner bloqueava qualquer nudez frontal plena. Só que o mercado acabou vencendo e em 1972, 19 anos após a fundação, a Playboy mostrou seu primeiro nu frontal.

Dois anos depois, as bancas ganharam outra revista masculina que se gabava em mostrar o que o mundo não via: a nudez explícita (assistam ao filme O Povo Contra Larry, sobre a criação da Hustler). As poses ginecológicas das mulheres na revista chamavam muito a atenção e causavam escândalo. Larry Flynt, o fundador da Hustler, provocava muito Hefner e zombava da “nudez light” da Playboy. Desta vez, Hefner nem entrou na briga e fez questão de impedir qualquer nudez explícita nas páginas de sua revista (adendo: isso se manteve ao longo dos anos, a Playboy dos EUA nunca adotou a política da nudez explícita).

A artesã Brook Power (à esq.) na edição de maio de 2016 e a modelo Laura Young, em outubro de 1962
A justificativa de retirar a nudez da Playboy faz sentido. O acesso ao nu está a um clique de distância. Pode ser visto a nudez que desejar. Como a Playboy nunca se sustentou por inteira na mulher pelada, a mudança não é brusca. Afinal de contas, aquela pessoa que queria ver nudez na Playboy nem comprar a revista comprava: ia na internet e procurava algum site que mostrassem apenas as fotos.

Sendo assim, os leitores da Playboy não se dispersaram. Estão consumindo a revista normalmente. Em entrevista recente concedida ao site especializado em marketing Advertising Age, o diretor-executivo da Playboy, Scott Flanders, revelou que a maioria dos anunciantes da edição de março deste ano, a primeira sem nudez, firmaram compromisso para estar presente em outras edições. Geralmente, de acordo com Flanders, quando um novo projeto de conteúdo é lançado, anunciantes esperam de três a quatro edições para decidirem se vão abraçar o novo conceito. Esse é só um entre tantos fatores que confirmam o golaço que a Playboy marcou com a nova estratégia adotada.

Na esquerda, a modelo Keillani Asmus na Playboy de maio de 2016; e a professora/atriz Susan Kelly, em maio de 1961

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