Capítulo 9 – Fernanda e o reflexo no espelho


Fernanda encontrou refúgio no apê da melhor amiga da facul. Lá que ela iria “morar por um tempo”, como combinado. Era a única opção para não ficar, literalmente, na rua.

Sempre positiva, tentava achar alguma luz no fim daquela treva onde estava. Nem tanto por ter de dividir um minúsculo espaço com outra pessoa, mas por ter receio do que estaria por vir.

Tal pensamento passou bem forte por sua mente quando certo dia estava se arrumando de manhã. O preparo para a jornada dupla, facul e estágio, estava sendo estafante. Ao olhar para o chão e desligar-se por um instante, Fernanda entrou em transe. Se sentou sobre a tampa do vaso sanitário, o mesmo no qual fez o teste que indicou gravidez. Olhou para o espelho em sua frente, se encarou. Ajeitou os óculos com o dedo indicador, mas o deslize não foi causado pelo suor, como de costume. Eram lágrimas.

- Miga, cê sabe que não tenho muito o que dizer... mas sei que vai dar tudo certo...

- Eu acredito nisso também – falou Fernanda, com a voz embargada. Eu tenho de agradecer muito a você por tudo o que tem feito, pela ajuda, pela...

- É o mínimo que eu posso fazer. Mas se apresse. Temos de ir... E o seu cel tocou, adivinha quem era?

***

A relação entre Fernanda e o garoto do olho de jabuticaba já vinha turbulenta desde pouco antes da grande notícia, em parte pela indiferença do pai da moça com ele. O menino tem dado assistência, a visitando constantemente. Mas aqueles momentos quentes de amor cessaram.

As conversas que tinham no começo do namoro, em especial as da semana de sinal vermelho, se intensificaram. E Fernanda ganhava cada dia mais confiança nele. Fazia desabafos, chorava. O garoto ouvia com educação, se mostrava prestativo. Numa dessas oportunidades, ela abriu o jogo.

- Não dá mais. Não consigo mais sair de casa todo dia, ir pra facul, ir trabalhar... Acho que vou largar tudo e cuidar do que importa.

- Cê tem certeza disso? Pensou em todas as alternativas? – indagou o garoto, sem muita paixão e vigor em suas palavras.

- Sim. Eu sinceramente não sei como farei com as minhas contas, mas dou um jeito. Minha amiga vai me ajudar. Minha mãe me ajuda por fora sem meu pai saber...

Aquela palavra machucava o garoto. Pai... Era o motivo pelo qual ele se afastou, pois via que não haveria um futuro tranquilo entre eles com esse ódio do pai sobre ele. Além do fato de não aceitar a expulsão de casa de Fernanda. Apesar dessa compaixão, ele enxergava zero futuro entre os dois, como um e dois.

- Eu te ajudo também, não se preocupe. Aliás, tive pensando muito nisso e... Não dá mais.

- O quê que não dá mais?

- A gente, como casal. Há meses que não acontece nada. Melhor definirmos e seguir em frente. É evidente que estarei ao seu lado e do bebê a todo o momento, lhe ajudarei como precisar. Acredito que isso é o certo a se fazer.

Fernanda sentiu o baque, sem demonstrar reação para não expor fraqueza. Lá no fundo, ela esperava por algo do tipo, só não queria acreditar que iria acontecer de fato.

Precisava falar algo, reagir, dar alguma resposta. Optou por ser tão fria quanto e foi taxativa com a sugestão que lhe foi dada.

- Tudo bem.

***

O aguardado dia estava se aproximando. Longe da facul (trancou) e do trabalho (pediu licença), Fernanda fazia realmente o que mais importava: cuidava de si e do bebê. Tinha o auxílio de três pessoas sim, só que no fim do dia era ela e a criaturinha que logo mais veria a luz _ainda não sabia o sexo do bebê.

Em seu refúgio, que na verdade era o banheiro do apê de sua amiga, Fernanda tinha os melhores momentos de reflexão, por mais estranho que possa parecer. Instantes antes de entrar no banho, sentada no “trono”, a futura advogada viu uma luz no fim do túnel. Era um neon escrito “mãe solteira”. Se algumas viam isso como maldição ou fim da linha, Fernanda enxergava uma oportunidade. Ao se levantar e olhar no espelho, admirando seus seios fartos e firmes, a barriga linda e recheada, ela deu um sorriso para si mesma. Faria de tudo para a menina ser seu reflexo, uma projeção, um bom exemplo apesar das circunstâncias.

A motivação de um futuro melhor estava ali dentro.

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