Capítulo 8 - Fernanda e a certeza das incertezas


Colocada na balança, até que a vida de Fernanda não estava negativa, somente. Antes de entrar em férias renovou o contrato de estágio, notas boas na escola, amizade sólida com a amiga da facul. Mas ponderava se o outro lado da bandeja iria sobrepor a positividade. A falta de apoio do pai a deixava insegura no relacionamento _e isso a minava gradativamente. O que fazia duvidar sobre qual bandeja seria digna de receber esse peso.

Ah! Sem contar o tal atraso em seu ciclo...

O sinal não no verde nem no vermelho. Estacionou no amarelo. A atenção em saber o que estava acontecendo a afastou de quem mais queria compartilhar essas incertezas: a mãe. A definição clássica de fiel escudeira não lhe ajudaria nessa questão, pelo menos antes de saber ao certo se estava ou não. Recorreu à melhor amiga.

Conversaram brevemente ao telefone, apenas para marcar onde se encontrariam. A residência da amiga foi a escolhida, tal assunto não teria nenhuma condição de ser tratado à distância. Antes de chegar no apê, Fernanda passou na farmácia e, envergonhada e trêmula, comprou um teste de gravidez. Um não, dois. Queria ter certeza.

- Ei, fique calma, vai dar tudo certo. Vê só...

- Como você fala uma coisa dessa, apenas por falar? – interrompeu Fernanda, visivelmente irritada, como se estivesse fora de si, de um jeito que sua amiga nunca testemunhou.

- Desculpa... Não queria só falar por falar... – disse a amiga coçando a cabeça enquanto observava Fernanda se jogando de cara no sofá.

- Mmmmm, mmmm...

- Ahn? Não entendi...

- E agora, o que eu faço? – Fernanda sussurrou baixinho após tirar o rosto de uma almofada, que acusava uma mancha úmida.

- Ei! Se endireita – a amiga sentou Fernanda no sofá, tratou logo de matar uma lágrima que escorria na bochecha dela com o dedão da mão esquerda – Vou ali pegar uma água para você tomar e se acalmar um pouco.

Serviria também para o que viria a seguir.

Fernanda foi ao banheiro do apê da amiga e lá se daria o grande momento. Apreensiva, a colega só ficou de longe, na porta, observando. Talvez tanto nervosa quanto ela. Infinitos quatro, cinco minutos se passaram. Quatro, cinco minutos mudos. Quando Fernanda olhou para o teste, foi como se a rotação da Terra parasse por um instante.

Nem precisou falar nada. O olhar direcionado para a amiga aflita disse tudo.

Sinal azul.

***

Algumas semanas se passaram. Férias perto do fim, facul e trabalho prestes a lhe chamar de volta. Fernanda mantinha em segredo o que não teria mais condições de esconder, principalmente do pai e da mãe.

Fernanda tinha de contar. Sua mãe merecia saber antes de desconfiar, assim como seu pai. Sem planejar muito, sem treinar falas, ela decidiu por vez tirar esse peso.

- Mãe, descansa aqui um pouco e senta, tenho de te contar algo.
Meio assustada, ela largou o pano de prato, deixou um prato na bancada de mármore e se sentou.

- Tô grávida – atirou Fernanda com o mínimo de firula. Disparou, tirou o band-aid de vez. Porém, logo em seguida começou a suar frio e perder um pouco da base.

- Como assim, grávida?

- É... é... grávida. Tô grávida.

A mãe juntou as mãos como se fosse rezar e apoiou os cotovelos nas coxas. Abriu elas, passou em toda a cabeça, chegou ao pescoço e voltou à frente do rosto. Se levantou não escondeu uma preocupação que ela expôs. [imagine você sendo a mãe, repita os gestos dela]

- Como a gente vai contar para o seu pai?

- Não sei, não sei – falou uma Fernanda em tom de desespero – Depois a gente diz...

- Não perguntei quando, eu disse CO-MO! – esbravejou – Não dá para esconder isso dele, pelo amor de Deus!

- Tá! – devolveu Fernanda quase aos gritos, com um tom de voz prejudicado pela iminência do choro.

- Olha, seu pai precisa saber o quanto antes...

- Eu preciso saber o quê? – perguntou o pai, que entrou de surpresa na cozinha por ter chegado do trabalho mais cedo do que o habitual.

A mãe, de costas, se virou e não tinha como esconder a cara de espanto. Fernanda, escondida do campo de visão do pai pela mãe, surgiu de frente ao olhar dele com lágrimas prestes a escorrer pelo rosto. 

- Alguém me diga logo que que tá acontecendo! – perguntou aos berros o pai.

O vácuo o fez ficar mais raivoso.

- Porra! Falem! – ordenou, encarando ambas.

- Fernanda tá grávida / Tô grávida – responderam juntas

Se o encosto da cadeira fosse de ferro, tinha entortado. A mão do pai se fechou com tanta força... Ele inclinou a cabeça, respirou fundo e fez a pergunta crucial.

- De quem é?

- Do... Do meu namorado?

- Namorado! Aquilo não é seu namorado! – se indignou o pai, que já não gostava do garoto dos olhos de jabuticaba. Ele tinha aquela visão mais romântica, pensava que sua filha ia se casar com um profissional liberal de respeito. Imaginava-se avô de um produto vindo de uma relação nesse naipe, não de um cenário dramalhão que estava se desenrolando na ponta do nariz.

- Saí da minha casa! Agora! – mandou o pai, com o mínimo de dó.

- Calma, querido. Não é assim. É nossa filha...

- Nossa? Sua! Não quero criar debaixo do meu teto um fruto de (...) – não quis completar a frase. Respirou, fechou os olhos e apontou para a porta da sala – Sai da minha frente e não demore...

- Você tá sendo inconsequente, para onde ela vai?

Com olhos pegando fogo e totalmente sombrios, o pai encarou Fernanda por aquela que poderia ser a última vez em que se viam olho no olho.

- Dê seus pulos – sentenciou. 

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