Colocada na balança, até que a vida de Fernanda não estava
negativa, somente. Antes de entrar em férias renovou o contrato de estágio,
notas boas na escola, amizade sólida com a amiga da facul. Mas ponderava se o outro
lado da bandeja iria sobrepor a positividade. A falta de apoio do pai a
deixava insegura no relacionamento _e isso a minava gradativamente. O que fazia
duvidar sobre qual bandeja seria digna de receber esse peso.
Ah! Sem contar o tal atraso em seu ciclo...
O sinal não no verde nem no vermelho. Estacionou no amarelo.
A atenção em saber o que estava acontecendo a afastou de quem mais queria
compartilhar essas incertezas: a mãe. A definição clássica de fiel escudeira
não lhe ajudaria nessa questão, pelo menos antes de saber ao certo se estava ou
não. Recorreu à melhor amiga.
Conversaram brevemente ao telefone, apenas para marcar onde
se encontrariam. A residência da amiga foi a escolhida, tal assunto não teria
nenhuma condição de ser tratado à distância. Antes de chegar no apê, Fernanda
passou na farmácia e, envergonhada e trêmula, comprou um teste de gravidez. Um
não, dois. Queria ter certeza.
- Ei, fique calma, vai dar tudo certo. Vê só...
- Como você fala uma coisa dessa, apenas por falar? – interrompeu
Fernanda, visivelmente irritada, como se estivesse fora de si, de um jeito que
sua amiga nunca testemunhou.
- Desculpa... Não queria só falar por falar... – disse a amiga
coçando a cabeça enquanto observava Fernanda se jogando de cara no sofá.
- Mmmmm, mmmm...
- Ahn? Não entendi...
- E agora, o que eu faço? – Fernanda sussurrou baixinho após
tirar o rosto de uma almofada, que acusava uma mancha úmida.
- Ei! Se endireita – a amiga sentou Fernanda no sofá, tratou
logo de matar uma lágrima que escorria na bochecha dela com o dedão da mão
esquerda – Vou ali pegar uma água para você tomar e se acalmar um pouco.
Serviria também para o que viria a seguir.
Fernanda foi ao banheiro do apê da amiga e lá se daria o
grande momento. Apreensiva, a colega só ficou de longe, na porta, observando.
Talvez tanto nervosa quanto ela. Infinitos quatro, cinco minutos se passaram.
Quatro, cinco minutos mudos. Quando Fernanda olhou para o teste, foi como se a
rotação da Terra parasse por um instante.
Nem precisou falar nada. O olhar direcionado para a amiga
aflita disse tudo.
Sinal azul.
***
Algumas semanas se passaram. Férias perto do fim, facul e
trabalho prestes a lhe chamar de volta. Fernanda mantinha em segredo o que não
teria mais condições de esconder, principalmente do pai e da mãe.
Fernanda tinha de contar. Sua mãe merecia saber antes de
desconfiar, assim como seu pai. Sem planejar muito, sem treinar falas, ela
decidiu por vez tirar esse peso.
- Mãe, descansa aqui um pouco e senta, tenho de te contar
algo.
Meio assustada, ela largou o pano de prato, deixou um prato
na bancada de mármore e se sentou.
- Tô grávida – atirou Fernanda com o mínimo de firula.
Disparou, tirou o band-aid de vez. Porém, logo em seguida começou a suar frio e
perder um pouco da base.
- Como assim, grávida?
- É... é... grávida. Tô grávida.
A mãe juntou as mãos como se fosse rezar e apoiou os
cotovelos nas coxas. Abriu elas, passou em toda a cabeça, chegou ao pescoço e
voltou à frente do rosto. Se levantou não escondeu uma preocupação que ela expôs. [imagine você sendo a mãe, repita os gestos dela]
- Como a gente vai contar para o seu pai?
- Não sei, não sei – falou uma Fernanda em tom de desespero –
Depois a gente diz...
- Não perguntei quando, eu disse CO-MO! – esbravejou – Não dá
para esconder isso dele, pelo amor de Deus!
- Tá! – devolveu Fernanda quase aos gritos, com um tom de
voz prejudicado pela iminência do choro.
- Olha, seu pai precisa saber o quanto antes...
- Eu preciso saber o quê? – perguntou o pai, que entrou de
surpresa na cozinha por ter chegado do trabalho mais cedo do que o habitual.
A mãe, de costas, se virou e não tinha como esconder a cara
de espanto. Fernanda, escondida do campo de visão do pai pela mãe, surgiu de
frente ao olhar dele com lágrimas prestes a escorrer pelo rosto.
- Alguém me diga logo que que tá acontecendo! – perguntou aos
berros o pai.
O vácuo o fez ficar mais raivoso.
- Porra! Falem! – ordenou, encarando ambas.
- Fernanda tá grávida / Tô grávida – responderam juntas
Se o encosto da cadeira fosse de ferro, tinha entortado. A
mão do pai se fechou com tanta força... Ele inclinou a cabeça, respirou fundo e
fez a pergunta crucial.
- De quem é?
- Do... Do meu namorado?
- Namorado! Aquilo não é seu namorado! – se indignou o pai,
que já não gostava do garoto dos olhos de jabuticaba. Ele tinha aquela visão
mais romântica, pensava que sua filha ia se casar com um profissional liberal
de respeito. Imaginava-se avô de um produto vindo de uma relação nesse naipe,
não de um cenário dramalhão que estava se desenrolando na ponta do nariz.
- Saí da minha casa! Agora! – mandou o pai, com o mínimo de
dó.
- Calma, querido. Não é assim. É nossa filha...
- Nossa? Sua! Não quero criar debaixo do meu teto um fruto
de (...) – não quis completar a frase. Respirou, fechou os olhos e apontou para
a porta da sala – Sai da minha frente e não demore...
- Você tá sendo inconsequente, para onde ela vai?
Com olhos pegando fogo e totalmente sombrios, o pai encarou Fernanda
por aquela que poderia ser a última vez em que se viam olho no olho.
- Dê seus pulos – sentenciou.

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