Procuradora luta contra o descrédito para expor rede pornô nos EUA


Não confunda: esta não é uma história fictícia, enredo de um filme.

A Procuradora-Geral do Estado da Pensilvânia, Kathleen Kane, está enfrentando o descrédito em meio a missão de desvendar um dos maiores escândalos já vistos na política norte-americana. Em seu último ano no cargo, ela traçou como meta desmascarar advogados, políticos e autoridades envolvidas em uma corrente de e-mails pornográficos com conteúdo extremamente explícito e degradante às mulheres.  

Um dos detalhes sórdidos é que tais mensagens foram trocadas em horário de serviço, usando computadores públicos.

São mais de 50 pessoas flagradas no intitulado Porngate. Mais de 4 mil e-mails trocados, entre 2008 e 2012. Esse período foi justamente quando grande parte dos indivíduos nesse escarcéu estavam investigando um caso de pedofilia e abuso sexual contra um técnico de futebol americano de uma das principais universidades dos Estados Unidos, a Penn State (universidade estadual da Pensilvânia).

O conteúdo dos e-mails é deplorável. Uma das imagens apresentadas por Kathleen para a imprensa mostra uma garrafa de champanhe desaparecendo em uma vagina. Outra traz uma mulher nua, bêbada, jogada no chão ao lado de uma frase agradecendo a várias marcas de bebidas alcoólicas.

Há também uma coleção de imagens que ganhou o título Banana Split Loira. Nela podem ser vistas mais de 30 fotos com mulheres enfiando bananas em todos os buracos existente no corpo. Closes ginecológicos de vaginas são algo comum de se encontrar nesses e-mails.

Kathleen batalha desde 2014, a primeira vez que viu tais mensagens, todas elas compiladas em um CD, para criminalizar os responsáveis por toda essa nojeira. Mas os homens atrás do Porngate lutam para que não apenas tais nomes venham a público: querem desmoralizar a procuradora.

E olha, estão conseguindo.

Perceba os dois extremos que Kathleen atingiu desde a sua eleição, em 2012.

Na época, ela era uma mera desconhecida do meio político e do poder estritamente masculino na Pensilvânia. Kathleen vem de uma família pobre de uma região carente do Estado. Teve que vencer muitos obstáculos na adolescência para entrar em uma faculdade. Acabou se formando em duas: Estudos Internacionais pela Scranton (1988) e Direito pela Temple (1993). Trabalhou em várias empresas particulares e teve o primeiro contato com a política quando colaborou para a campanha presidencial da Hillary Clinton, ex-primeira-dama dos EUA, em 2007.

Decidiu concorrer à Procuradoria-Geral em 2012. O que ela tinha no começo era dinheiro. Toda campanha foi alicerçada no investimento feito pelo marido, administrador de uma importante empresa de transportes. Seu discurso contra a corrupção, aliado ao carisma frente à imprensa, lhe deu forças, chegando a ganhar apoio do ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton.

Kathleen ganhou fácil a eleição, mais de 14% de diferença. Assim, se tornou a primeira mulher a assumir o cargo maior de advocacia na Pensilvânia. E assim começou a perseguição.

O principal foco dela era acabar com a corrupção no Estado, que era (é) muita! O problema é que os agentes das “malfeitorias” bolaram um plano para acabar com Kathleen assim que algo surgisse contra eles. E isso foi em... 2014.

Vazaram documentos confidenciais do escritório de Kathleen revelando detalhes de juris e casos da Procuradoria. Ela jurou de pés juntos que não tem nada a ver com isso, mas a Justiça pensou de outra forma. Nos tais documentos, adversários de Kathleen são desmoralizados e o objetivo seria exatamente esse. Só que ela defende que foram seus próprios inimigos que fizeram isso para que a opinião pública ficasse contra ela.

Não deu muito certo, só que conseguiram algo a mais. A Justiça, com amigos linkados na corrente pornô, condenou Kathleen por perjúrio, falso testemunho e obstrução. Tudo isso bateu na porta da OAB deles e Kathleen perdeu a “carteirinha” de advogada.

Só que ela continua no cargo. Diz que só sossegará quando os responsáveis pelo Porngate forem fichados. Porém, ela está pagando um preço alto por isso. O marido pediu divórcio alegando que a “heroína” tem pouco tempo para ficar em casa, cuidar da família. Até 2014, Kathleen era nome forte para ser a futura governadora do Estado, com potencial para concorrer à Presidência dos EUA. Hoje, ela não tem nem clima para se reeleger procuradora. Não que lhe falte apoio (pesquisas pontam que ganharia fácil, de novo), mas disse no começo deste ano que dedicará mais tempo aos filhos, um de 12 e outro de 14 anos.

Vale a pena passar por tudo isso?

“Tem dias que eu penso: em que eu fui me enfiar? O que eu fiz?”, se questionou em entrevista para a revista Esquire. “Eu tinha uma vida boa e confortável, não precisava trabalhar, não precisava nada disso. Eu vivia feliz. Meus filhos eram felizes. Minha família era feliz. Ás vezes me sinto culpada por colocar meus filhos no meio desse turbilhão. Eu escolhi esse emprego, não foram eles que escolheram. E agora estão nessa jornada comigo, que nenhum de nós pode sair até que chegue ao fim”.

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