Naquela stalkeada básica no Facebook, Fernanda foi
descobrindo mais sobre o garoto do olho de jabuticaba. Ela parecia uma expert
na missão, pois focava mais nas fotos dos que nos posts _na verdade, era a
concretização de uma dica dada pela sua melhor amiga da facul. E, afinal de
contas, uma imagem vale mais do que mil palavras.
O deslizar do dedo na tela do tablet lhe dava uma sensação
boa. Não do ato em si, mas a de que algo bom estava acontecendo. Mais do que o
virar dos olhos do sexo. O quê? Ela não saberia responder se pudéssemos fazer
essa pergunta. Sua intuição lhe dava a garantia.
Quando ela foi ver mais sobre o garoto na ficha técnica da
rede social e tocou no link Família e Relacionamentos estava lá os pais, primos,
a parentada toda. E especificamente em Relacionamento aparecia destacado: Solteiro.
E pensou automaticamente em qual nível chegaria a sua relação com ele.
Os dias iam passando, meses, e a intimidade entre eles crescia. Um
casal já? Bem, andavam de mão dadas no shopping, se isso vale algo. Mas não o
apresentou aos seus pais, aos seus amigos. Não via necessidade para isso, muito
menos para rotular a relação na vitrine online só para se amostrar.
Tudo estava lindo. Fernanda descobriu que um homem em sua
vida não a atrapalharia nos estudos e nem no trabalho. Descobriu também que era
uma máquina de fazer sexo. Se pudesse, eram todos os dias do mês. Mas tinha de descansar
e usava a semana do sinal vermelho, da interdição, para fazer isso. E ter dias
mais “normais” com o garoto, usar o máximo do tempo para se conectarem
mentalmente.
(Nem) Tudo estava lindo. Sim, tinha o seu pai. A relação de
Fernanda com a mãe não se alterou com um homem em sua vida. Aquilo servia de
alicerce para Fernanda, uma fonte de conselhos e desabafos, sem julgamentos.
Tirando as aventuras sexuais, ela contava tudo para mãe.
E um dia estavam conversando sobre como a interação
filha-pai se exauria. Não havia mais aqueles finais de semana em família. Em
grande parte, porque, assim como naquele inesquecível sábado, Fernanda deixava esses momentos
na coluna Plano B. O tempo livre era ocupado pelo garoto.
- Filha, não tem jeito. Você vai ter de conversar com ele.
Evite rodeios, seja direta.
- Tá. Mas o que eu vou dizer? Nem eu sei se estou namorando,
ficando...
- Diga que são amigos, que estão se conhecendo – aconselhou a
mãe tranquilamente enquanto secava a louça
- Ei! É do pai que estamos falando. Ele não vai cair
nessa... “Amigos”...
[olharam diretamente uma para a outra e sorriram]
- Fato é, não sei o que vou dizer.
A mãe coloca o pano no ombro esquerdo, puxa uma cadeira e
determina.
- Faça o seguinte: daqui a pouco seu pai vem aqui pra
cozinha pegar alguma coisa. Água, cerveja... Diz que você tem de falar uma coisa
com ele e deixa seu feeling te levar.
- Mas mãe... – falou uma Fernanda ainda incrédula. No mesmo
instante que seu pai aparecia no fim do corredor, a caminho da cozinha.
- Simula! Simula! – Quase grita a mãe, prontamente pegando
uma tupperware para acariciar.
- Simula?
- É? Chaves. Se esqueceu? Seu pai tá vindo aí.
Com um caminhar sossegado, ele abre a geladeira e ouve.
- Tá calor, né amor?
- Sim. Vim pegar uma cerveja – resposta tão seca quanto o
clima, nem tirou o olhar da geladeira.
A mãe fazia uns gestos com a cabeça, inclinando para a
esquerda, um toque para Fernanda começar a falar.
- Pai, preciso te contar uma coisa.
- Pode falar – outra reposta seca, mas agora já olhando para
a filha, quase sem expressão no rosto. Esperava o que quer que fosse, concentrando-se mais em abrir a latinha e tomar um gole.
- Tô saindo com um cara.
[...]
Um silêncio de segundos tomou conta. Fernanda olhava para a
mãe, a mãe para o marido...
- Namorado?
- Não sei ainda – falou sentindo um gelo no corpo, esperando
a reação do pai.
Que foi simplesmente fechar ainda mais a cara e ir em
direção da sala.
- Péra pai! – disse Fernanda se levantando apressada, o
segurando no braço
- Quero te mostrar uma foto dele. Tô gostando muito... E ter a sua aprovação seria muito importante para mim.
Ele aguardou Fernanda pegar no celular e mostrar a bendita
foto. Ou maldita?
- Não é um cara confiável – Falou taxativo enquanto deixava
as meninas
atônitas na cozinha.
O pior é que, no final das contas, a intuição masculina dele
foi certeira.

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