Capítulo 6 – Fernanda e a maldição em forma de benção (parte I)


Naquela stalkeada básica no Facebook, Fernanda foi descobrindo mais sobre o garoto do olho de jabuticaba. Ela parecia uma expert na missão, pois focava mais nas fotos dos que nos posts _na verdade, era a concretização de uma dica dada pela sua melhor amiga da facul. E, afinal de contas, uma imagem vale mais do que mil palavras.

O deslizar do dedo na tela do tablet lhe dava uma sensação boa. Não do ato em si, mas a de que algo bom estava acontecendo. Mais do que o virar dos olhos do sexo. O quê? Ela não saberia responder se pudéssemos fazer essa pergunta. Sua intuição lhe dava a garantia.

Quando ela foi ver mais sobre o garoto na ficha técnica da rede social e tocou no link Família e Relacionamentos estava lá os pais, primos, a parentada toda. E especificamente em Relacionamento aparecia destacado: Solteiro. E pensou automaticamente em qual nível chegaria a sua relação com ele.

Os dias iam passando, meses, e a intimidade entre eles crescia. Um casal já? Bem, andavam de mão dadas no shopping, se isso vale algo. Mas não o apresentou aos seus pais, aos seus amigos. Não via necessidade para isso, muito menos para rotular a relação na vitrine online só para se amostrar.

Tudo estava lindo. Fernanda descobriu que um homem em sua vida não a atrapalharia nos estudos e nem no trabalho. Descobriu também que era uma máquina de fazer sexo. Se pudesse, eram todos os dias do mês. Mas tinha de descansar e usava a semana do sinal vermelho, da interdição, para fazer isso. E ter dias mais “normais” com o garoto, usar o máximo do tempo para se conectarem mentalmente.

(Nem) Tudo estava lindo. Sim, tinha o seu pai. A relação de Fernanda com a mãe não se alterou com um homem em sua vida. Aquilo servia de alicerce para Fernanda, uma fonte de conselhos e desabafos, sem julgamentos. Tirando as aventuras sexuais, ela contava tudo para mãe.

E um dia estavam conversando sobre como a interação filha-pai se exauria. Não havia mais aqueles finais de semana em família. Em grande parte, porque, assim como naquele inesquecível sábado, Fernanda deixava esses momentos na coluna Plano B. O tempo livre era ocupado pelo garoto.

- Filha, não tem jeito. Você vai ter de conversar com ele. Evite rodeios, seja direta.

- Tá. Mas o que eu vou dizer? Nem eu sei se estou namorando, ficando...

- Diga que são amigos, que estão se conhecendo – aconselhou a mãe tranquilamente enquanto secava a louça

- Ei! É do pai que estamos falando. Ele não vai cair nessa... “Amigos”...

[olharam diretamente uma para a outra e sorriram]

- Fato é, não sei o que vou dizer.

A mãe coloca o pano no ombro esquerdo, puxa uma cadeira e determina.

- Faça o seguinte: daqui a pouco seu pai vem aqui pra cozinha pegar alguma coisa. Água, cerveja... Diz que você tem de falar uma coisa com ele e deixa seu feeling te levar.

- Mas mãe... – falou uma Fernanda ainda incrédula. No mesmo instante que seu pai aparecia no fim do corredor, a caminho da cozinha.

- Simula! Simula! – Quase grita a mãe, prontamente pegando uma tupperware para acariciar.

- Simula?

- É? Chaves. Se esqueceu? Seu pai tá vindo aí.

Com um caminhar sossegado, ele abre a geladeira e ouve.

- Tá calor, né amor?

- Sim. Vim pegar uma cerveja – resposta tão seca quanto o clima, nem tirou o olhar da geladeira.

A mãe fazia uns gestos com a cabeça, inclinando para a esquerda, um toque para Fernanda começar a falar.

- Pai, preciso te contar uma coisa.

- Pode falar – outra reposta seca, mas agora já olhando para a filha, quase sem expressão no rosto. Esperava o que quer que fosse, concentrando-se mais em abrir a latinha e tomar um gole.

- Tô saindo com um cara.

[...]

Um silêncio de segundos tomou conta. Fernanda olhava para a mãe, a mãe para o marido...

- Namorado?

- Não sei ainda – falou sentindo um gelo no corpo, esperando a reação do pai.
Que foi simplesmente fechar ainda mais a cara e ir em direção da sala.

- Péra pai! – disse Fernanda se levantando apressada, o segurando no braço 

- Quero te mostrar uma foto dele. Tô gostando muito... E ter a sua aprovação seria muito importante para mim.

Ele aguardou Fernanda pegar no celular e mostrar a bendita foto. Ou maldita?

- Não é um cara confiável – Falou taxativo enquanto deixava as meninas 
atônitas na cozinha.

O pior é que, no final das contas, a intuição masculina dele foi certeira.

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