- Me diz logo como foi! Conta tudo e não esconde nada.
- Calma - seguido daquele olhar sob os óculos... Vamo acabar
o trabalho e a gente conversa lá embaixo, sem pressa.
- Não, com pressa, meu! Responde aí essas últimas perguntas
que eu vou no banheiro e já volto... Ah! Não esqueça de colocar meu nome aí na
bagaça, sua danada!
Fernanda respondeu com um aceno positivo de cabeça a
piscadinha da sua melhor amiga da facul. Aquela segunda-feira de tempo cinzento,
fechado, não poderia ser um maior contraste em relação ao que ela passou no dia
anterior. Ainda não tinha revelado a ela todos os detalhes do encontro com o
garoto do olho de jabuticaba. Faria logo mais.
A amiga demorou tanto que Fernanda terminou a atividade,
entregou para o professor e ficou a esperando do lado de fora da sala. Enquanto
mexia no celular, ela chegou e perguntou: Já terminou? Fernanda pensou em uma
resposta sarcástica, mas se segurou.
- Sim, tava esperando você para a gente descer.
- Beleza. Vou pegar minhas coisas... Ei! Cê anotou o número
do meu RA no trabalho?
Fernanda não se conteve dessa vez.
- Não sei porquê, mas sei ele de cor.
Com cara de emoction “aff”, ela entrou na sala.
***
Na praça de alimentação da facul.
- Poxa! Mas não rolou nem uns beijos?
- Uns?! Pra quê a pressa? Apenas conversamos... Mas foi legal,
sabe?
Antes de Fernanda concluir seu raciocínio, foi interrompida
abruptamente pela
amiga.
- Não vai me dizer que você é sapiossexual, como aquela
outra garota lá da sala? - Disse segurando o braço de Fernanda.
- Que nada, imagina... Tenho até prazer na leitura, mas não
neste nível aí tosco...
- Que alívio! Aposto que se imagina sendo pega como uma
dessas personagens dos livros pornô que tem.
- Não é pornografia, tá? É romance erótico – contra-atacou
com um certo ar de empáfia.
- Como se houvesse diferença...
- Enfim! Voltando ao assunto... O papo foi interessante, ele
é um cara legal... Vamo ver o que vai dar.
- Olha, só te digo o seguinte: se passar de quarta e ele não
te convidar para sair, esquece! Você não é prioridade. Tipo, ele chamou um
monte de meninas pra sair, levou vários fora, e você é a próxima da lista,
apenas.
- Pronto! – se espantou Fernanda, seguida de risos. Quem te
disse isso?
- Li num livro de auto-ajuda que fala sobre... – daí foi a
vez de Fernanda interromper o papo.
- Prefiro seguir as dicas dos meus livros...
***
Os dias foram passando e, invariavelmente, aquela
sugestão maluca de sua amiga a encucava. Já era quarta e Fernanda até avançou
um pouco as conversas com o garoto, mas nada que a indicasse um passeio no
final de semana. Como se estivesse em um filme, no instante que o pensamento
dela entrou nessa jornada o telefone vibrou,
Era ele.
Fernanda imediatamente entrou na conversa, passando pelo
início trivial que
toda a boa educação preza, e chegou a pergunta que queria
ler: “Vai fazer alguma coisa neste sábado?”
Encostada no fundo de um vagão do metrô, ela soltou um
sorriso tão grande e espontâneo que quem a visse de longe saberia que ela
recebeu uma mensagem boa. Até deu uma ajeitada no corpo respondeu que não e se excitou.
De alegria e de tesão. Conforme ia conversando, sentiu o bico dos seus seios se
enrijecer. Entrou por alguns segundos em transe e quando voltou a si, percebeu
que estava em um lugar público. Fechou mais o blazer, cobrindo os seios, com
receio de dar “sinal aceso”, e se virou de lado, ficando de frente para a
janela.
***
Chegou em casa e logo cumprimentou o pai, esparramado na
sala pronto para assistir o jogo do seu time. Foi para a cozinha, onde a mãe
estava preparando uns pastéis.
- Que bom que você está contente, filha? Dia bom no trabalho
hoje?
- Nada de especial, tranquilo... E por que diz que estou
contente?
- Mãe sabe – encerrou o assunto antes de ligar o fogão.
Tenho uma ótima notícia para te dar: seu pai ganhou um caso muito importante
hoje e sábado vamos sair para um lugar bem legal. E comemorar. Só não comente
nada com ele, vou fazer uma surpresa.
Sentada, Fernanda esticou o braço direito na mesa e com o
rosto em cima dele,
olhou para cima diretamente para a mãe e disse: Não vai
dar, vou sair.
- Ora, ora... Com quem?
- Um cara que eu conheci no final de semana. Não vai ser
nada de mais (mentira! Ela queria que fosse demais!).
- Ichi! Seu pai vai ficar uma fera quando souber que você
não vai com a gente, trocando por um encontro.
- Ué? Só você não contar. Diga que sairei com umas amigas,
um aniversário, trabalho da facul... Qualquer coisa!
- Tá bom.
Fernanda tinha essa conversa no melhor estilo Marisa com a mãe
enquanto devorava cada pastel que estava na sua frente. Era a ansiedade
crescendo.
Faltavam três dias. Eternos três dias.

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