Capítulo 4 – Fernanda e a ansiedade


- Me diz logo como foi! Conta tudo e não esconde nada.

- Calma - seguido daquele olhar sob os óculos... Vamo acabar o trabalho e a gente conversa lá embaixo, sem pressa.

- Não, com pressa, meu! Responde aí essas últimas perguntas que eu vou no banheiro e já volto... Ah! Não esqueça de colocar meu nome aí na bagaça, sua danada!

Fernanda respondeu com um aceno positivo de cabeça a piscadinha da sua melhor amiga da facul. Aquela segunda-feira de tempo cinzento, fechado, não poderia ser um maior contraste em relação ao que ela passou no dia anterior. Ainda não tinha revelado a ela todos os detalhes do encontro com o garoto do olho de jabuticaba. Faria logo mais.

A amiga demorou tanto que Fernanda terminou a atividade, entregou para o professor e ficou a esperando do lado de fora da sala. Enquanto mexia no celular, ela chegou e perguntou: Já terminou? Fernanda pensou em uma resposta sarcástica, mas se segurou.

- Sim, tava esperando você para a gente descer.

- Beleza. Vou pegar minhas coisas... Ei! Cê anotou o número do meu RA no trabalho?

Fernanda não se conteve dessa vez.

- Não sei porquê, mas sei ele de cor.

Com cara de emoction “aff”, ela entrou na sala.

***

Na praça de alimentação da facul.

- Poxa! Mas não rolou nem uns beijos?

- Uns?! Pra quê a pressa? Apenas conversamos... Mas foi legal, sabe?

Antes de Fernanda concluir seu raciocínio, foi interrompida abruptamente pela 
amiga.

- Não vai me dizer que você é sapiossexual, como aquela outra garota lá da sala? - Disse segurando o braço de Fernanda.

- Que nada, imagina... Tenho até prazer na leitura, mas não neste nível aí tosco...

- Que alívio! Aposto que se imagina sendo pega como uma dessas personagens dos livros pornô que tem.

- Não é pornografia, tá? É romance erótico – contra-atacou com um certo ar de empáfia.

- Como se houvesse diferença...

- Enfim! Voltando ao assunto... O papo foi interessante, ele é um cara legal... Vamo ver o que vai dar.

- Olha, só te digo o seguinte: se passar de quarta e ele não te convidar para sair, esquece! Você não é prioridade. Tipo, ele chamou um monte de meninas pra sair, levou vários fora, e você é a próxima da lista, apenas.

- Pronto! – se espantou Fernanda, seguida de risos. Quem te disse isso?

- Li num livro de auto-ajuda que fala sobre... – daí foi a vez de Fernanda interromper o papo.

- Prefiro seguir as dicas dos meus livros...

                                                        ***

Os dias foram passando e, invariavelmente, aquela sugestão maluca de sua amiga a encucava. Já era quarta e Fernanda até avançou um pouco as conversas com o garoto, mas nada que a indicasse um passeio no final de semana. Como se estivesse em um filme, no instante que o pensamento dela entrou nessa jornada o telefone vibrou,

Era ele.

Fernanda imediatamente entrou na conversa, passando pelo início trivial que 
toda a boa educação preza, e chegou a pergunta que queria ler: “Vai fazer alguma coisa neste sábado?”

Encostada no fundo de um vagão do metrô, ela soltou um sorriso tão grande e espontâneo que quem a visse de longe saberia que ela recebeu uma mensagem boa. Até deu uma ajeitada no corpo respondeu que não e se excitou. De alegria e de tesão. Conforme ia conversando, sentiu o bico dos seus seios se enrijecer. Entrou por alguns segundos em transe e quando voltou a si, percebeu que estava em um lugar público. Fechou mais o blazer, cobrindo os seios, com receio de dar “sinal aceso”, e se virou de lado, ficando de frente para a janela.

                                                         ***

Chegou em casa e logo cumprimentou o pai, esparramado na sala pronto para assistir o jogo do seu time. Foi para a cozinha, onde a mãe estava preparando uns pastéis.

- Que bom que você está contente, filha? Dia bom no trabalho hoje?

- Nada de especial, tranquilo... E por que diz que estou contente?

- Mãe sabe – encerrou o assunto antes de ligar o fogão. Tenho uma ótima notícia para te dar: seu pai ganhou um caso muito importante hoje e sábado vamos sair para um lugar bem legal. E comemorar. Só não comente nada com ele, vou fazer uma surpresa.

Sentada, Fernanda esticou o braço direito na mesa e com o rosto em cima dele, 
olhou para cima diretamente para a mãe e disse: Não vai dar, vou sair.

- Ora, ora... Com quem?

- Um cara que eu conheci no final de semana. Não vai ser nada de mais (mentira! Ela queria que fosse demais!).

- Ichi! Seu pai vai ficar uma fera quando souber que você não vai com a gente, trocando por um encontro.

- Ué? Só você não contar. Diga que sairei com umas amigas, um aniversário, trabalho da facul... Qualquer coisa!

- Tá bom.

Fernanda tinha essa conversa no melhor estilo Marisa com a mãe enquanto devorava cada pastel que estava na sua frente. Era a ansiedade crescendo. 

Faltavam três dias. Eternos três dias.

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