Junto com a dúvida, vinha o calor. E com ele, a umidade. A
confusão era tão grande e aquele suor frio em seu corpo só ajudava a se perder
na indecisão que pairava em sua frente. Aqueles segundos foram suficientes para
Fernanda criar coragem e, ao menos uma vez, deixar o metodismo de lado.
Escolheu o garoto do olho de jabuticaba ao invés da rua.
O caminhar tímido, combinado com o ajeitar dos óculos, para
ela servia como a imagem do pavor. Só que ele achava adorável tudo aquilo. Se
sentou em frente ao moço e começaram a conversar.
Sim, Fernanda tem uma parcela considerável de garotos em seu
currículo, mas não são tantos para criar um banco de dados robusto. Mesmo
assim, enquanto conversava com ele, Fernanda não conseguia fugir de comparações
com antigos casos e concluir rapidamente: onde você estava?
A atração física se misturou com a intelectual em uma
conversa raríssima. Nada de perguntas embaraçosas ou padronizadas, como se
estivesse sendo entrevistada por um recrutador de RH. O papo fluiu numa leveza
ímpar. Ela ouvia e tinha espaço para opinar. O mesmo acontecia com ele. Deu
horário de partir e Fernanda tomou a iniciativa de dar seu telefone para ele,
dizendo a frase batida “me chama no Whats”. O garoto do olho de jabuticaba
aceitou aquele papel e disse a ela: “Pode esperar”.
No dia seguinte, um tradicional domingo da preguiça,
Fernanda ficou inquieta. Buscava distrações nos livros das escolas, em músicas,
na TV... Sossegou quando optou por colocar em ordem as séries favoritas. Embora não conseguisse desviar o olhar do celular, na expectativa de
encontrar uma nova mensagem recebida.
Até que ela se entregou à brisa. Deitou em sua cama e
começou a pensar no garoto. Ficou na posição que mais gostava de divagar: de
pernas para o ar encostadas na parede. Com o mínimo de roupa possível, apenas
uma calcinha de algodão e uma blusa super fina e curta que nem o umbigo cobria,
Fernanda olhava para o teto azul do seu quarto e, enquanto ficava girando o
celular com a mão direita, simulava na mente todas as possibilidades que
poderia ocorrer: ele chamá-la e serem felizes para sempre; ele poderia
ignorá-la completamente, ou apenas a chamasse para avisar que foi legal o papo
de ontem tudo mais, só que não ia rolar.
Quando ela estava com o pensamento numa galáxia bem, bem
distante, toma um susto incrível. O celular vibrou! E o aparelho voou até o
travesseiro e subitamente desceu as pernas da parede e de bruços foi logo tocar
no bichinho e ver quem teria a chamado.
Era ele.
A mensagem que lia como se fosse uma adolescente, balançando
as pernas erguidas com os pés cruzados, dizia:
“Ótimo papo, muito bom mesmo!
Gostaria de te ver novamente...
O que acha?
:D”
Sim, uma adolescente. Aquilo, palavras tão simples, mexeu
com o coração. A boca se moveu incontrolavelmente. Um sorriso bem de canto
surgiu, acompanhado de um dedinho na boca e um olhar contente para os bichinhos
de pelúcia que habitavam em sua cama.
Naturalmente respondeu: "Ótima ideia! - ;)"
Daí foi outra conversa natural que se desenrolou. Muitas
brincadeiras, vários assuntos abordados. Só chegou ao fim porque ela tinha que
preparar algumas
coisas para a aula de segunda. Se despediram com aquela
educação que admirava de todo o coração.
De barriga para cima, Fernanda apertou o celular entre os
seios, suspirou fundo olhando para o teto.
Não sabia ao certo o que sentia, mas sabia que era bom.

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